Qualquer regresso à rotina custa sempre mais um pouco que o anterior.
Um dia meio cinzento, a sensação de nunca termos saído daquele sitio...
O mesmo autocarro, as mesmas caras, as mesmas ruas, os mesmos vizinhos...
A rotina voltou... E temos a sensação de que isso era a última coisa que queriamos nesse momento...
Mas depois vem a noite e com ela os primeiros sinais de cansaço.
Dormimos, até bem melhor que o habitual, e ao acordarmos no dia seguinte, tudo parece bem...
Estamos ali, no mesmo sítio, a acordar à mesma hora, a apanhar o mesmo autocarro, a ver as mesmas pessoas, a passar nos mesmos sitios... mas não nos importamos... Afinal, é a nossa rotina.
Não há nada como uma boa noite de sono...
E o Regresso torna-se desejado...
03/01/2006
22/11/2005
Lágrimas ocultas
Florbela Espanca
Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
14/11/2005
Se tanto me doi que as coisas passem
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem
Sophia de Mello Breyner Andresen
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